Não me procurem, amigos. Não me liguem, por favor. Muito provavelmente eu também não vá ligar para nenhum de vocês. Não é que eu não goste de vocês. Não é que eu não queira falar com vocês. Nem que eu não possa.
A verdade é que eu não tenho telefone. O meu, eu dei. Sob livre e espontânea pressão. Foi um sujeito meio antipático que me pediu no meio da rua. Ele pediu um dinheiro também. E eu acabei dando. Agora não tenho mais telefone.
Além de não ter mais meu telefone, perdi uma outra coisinha também. Acho que estou com falta de dignidade. Perdi um pouco de sal. E água. Combinados.
Só que não posso reclamar muito. Ganhei outra coisa. Ok, não é uma coisa legal. Mas não devemos reclamar do que recebemos de presente. Não é educado. Meu presente é muito simples. Ganhei o medo de qualquer pessoa inadvertida que apareça muito perto de mim.
Junto com o meu telefone, foi também uma pequena parte da minha vida. Pequena, é verdade, mas que faz falta. Meu telefone não era dos melhores. Dos mais modernos. Dos mais caros. Mas ele tinha algumas lembranças que eu agora já não tenho mais. Lembranças que não significam nada para quem agora o tem.
A pessoa para quem eu dei dinheiro e telefone também ganhou de outras pessoas naquela noite, e em outras noites. Ela deve ter ido para a casa, não tão tranquila, mas com a sensação de missão cumprida. Eu também fui para casa, e fiquei sentindo saudades de um telefone. Agora, amigos, não consigo falar com vocês. Não me liguem. Eu não vou atender. E eu também não ligarei para vocês. Nem sei mais como.